sexta-feira, 24 de março de 2017

este ano eu caso

eu tenho vontade de falar sobre o casamento. 

como dizia camelo, até quem me vê lendo o jornal na fila do pão, sabe que eu encontrei o amor da minha vida. mas não basta só que eles saibam, eu sinto vontade de falar detalhes, destrinchar os pormenores nem que seja com a depiladora que também faz massagem... e então eu aproveito pra dizer que este ano eu caso, e que seria bom fazer uma massagem alguns dias antes. também me parece útil comentar com a moça que lava o meu cabelo e me indica uma nova hidratação, porque este ano eu caso e preciso que meus cabelos fiquem bem até lá. dá vontade de comentar com os meus alunos, quando estamos discutindo sobre o dia internacional da mulher, e neste ano eu caso e caso com alguém, mas aparentemente a sociedade acredita que só eu devo fazer o serviço de casa. também valeu a pena comentar com a moça da documentação, pra que ela agilize o processo, tudo está demorando demais, ficando muito em cima da hora, e bem, precisamos apressar as coisas, afinal de contas, julho está aí e é neste mês que eu caso.

aqui dentro de casa eu também falo sobre o casar. mas falamos muito mais sobre a festa. são tantos detalhes! o envelope, a cor da decoração, os bem casados, o tom dos vestidos das madrinhas. falamos sobre isso o tempo todo, minha mãe e irmã preocupadas com o chá bar, meu pai fingindo não escutar e nós tagarelando, tagarelando, sobre o arranjo da minha cabeça, o dia da noiva e onde ficarão meus livros. e então a gente para de falar. porque tudo bem falar da festa, mas falar sobre eu sair de casa já é demais.

é como se tudo fosse uma despedida. outro dia coloquei florence and the machine pra tocar às 22h e chamei minha irmã pra ouvir e dançar no escritório como tantas vezes a gente faz. dançamos felizes, mas tive que me controlar pra não chorar. me peguei voltando pra almoçar em casa numa quinta e pensando se isso vai ser possível daqui quatro meses. o endereço que eu coloquei no passaporte também me lembrou que daqui um tempo essa casa será 'a casa da minha mãe'. quando meu cachorro fez festa, no minuto em que eu cheguei acabada do serviço, pensei que em 100 dias. talvez menos, eu não o terei como anfitrião. e isso continua no momento em que eu acordo, com o toque suave das mãos da minha mãe, quando meus pais brigam na mesa e eu troco olhares tão cheios de significado com a minha irmã, quando eu acendo a luz do quarto e ela resmunga, porque quer dormir. e então falar sobre isso não é tão gostoso assim. prefiro os envelopes. ou a moça da depilação. 

esse ano eu caso e eu nunca vivi misto tão grande de sensações. é a certeza mais profunda da minha vida, mas é também o novo, a despedida, o medo, a insegurança, a vontade e o tesão. todo mundo me perguntando, todo mundo querendo saber, enquanto eu olho pro anel que vai no dedo esquerdo da minha mão. 

ele muda de lugar daqui três meses.
eu também. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

voyeur

quando eu andava de metrô as pessoas me inspiravam.
eu nunca ficava sem escrever aqui no blog, porque eram tantas as possíveis histórias! adorava ficar naquele devaneio discreto, olhando as pessoas de rabo de olho (quando não o fazia incansavelmente de maneira direta), imaginando suas vidas pelas tatuagens, pela vestimenta, pelo que liam ou ouviam. tinha vontade de fazer entrevistas com algumas delas, meu lado jornalista literária pulsando, cheio de vontade de saber e contar aquelas histórias. com algumas delas eu puxava conversa, com outras imaginava... a velha história do tão citado Samuel Rosa que adoro repetir.

lembro quando acontecia da pessoa descer antes do esperado, num ponto de ônibus ou estação de metrô. eu sentia uma vontade louca de pedir que ficasse, não!, não desce nesta estação ainda não, eu ainda não consegui desvendar (e desmembrar e imaginar e construir) você! mas na maior parte do tempo, a vontade aguda era de descer junto com ela - geralmente era ela, poucos ele - e descobrir um pouco mais, confirmar minhas suspeitas, encontrar novos segredos. eram pessoas especiais, pois eram escolhidas em espaços pequenos lotados, cheios de rostos e histórias a serem desvendadas, mas que se destacavam ou pela beleza, ou pelo modo de sentar... quem sabe sorrir?

hoje pouco ando de metrô e tenho que confessar que há um alívio nessa constatação. afinal de contas, quem aqui já se aventurou por são paulo às 7 da manhã ou da noite ou em qualquer outro período neste meio tempo, bem sabe que é tarefa árdua. quando entro no meu carro neste calor de quase quarenta graus e ligo o ar condicionado só consigo pensar que Deus teve piedade de nós de alguma forma e não há traço de memória que me faça voltar para a delícia que era estudar aquelas histórias. ademais, há sempre muitos carros.

são paulo se fosse palavra seria gente (ou oportunidade? nunca decidi!) e hoje me peguei analisando a moça do carro ao lado. o trânsito permitiu que eu notasse seu braço tatuado, a calota do lado esquerdo faltando, o óculos de sol roxo e os cabelos encaracolados. em determinado momento o celular dela tocou, mas não consegui escutar o que dizia (maldito motoqueiro!), só notei que parecia bem irritada. parecia o tipo que solta palavrão sem parar, que trabalha tocando violão em barzinho, que tem segurança em chegar em qualquer homem e que nunca pensaria em engravidar. dessas mulheres, tão avessas a mim, autossuficientes, cheias de atitude, que ignoram a vontade de filhos pois se bastam e fim. gostei dela de cara. 

mas então o caminhão que manobrava à frente liberou o trânsito e enquanto eu maldizia a rapidez do trânsito surpreendentemente bom que me tirava o prazer de observá-la, ela cheia de pressa me cortou pela esquerda, logo virando na continuação da avenida conceição e só parando depressa para não atropelar um pedestre desses folgados que cruzam a rua sem olhar pros lados e quase morrem nos deixando a culpa. parei logo atrás dela e li no adesivo cafona que ia colado no vidro traseiro do corsa : "cuidado, elis à bordo". só então notei a cadeirinha de bebê no banco de trás. ao menos acertei o gosto por música, pensei enquanto ela buzinava com força mostrando o dedo do meio para a pedestre desavisada.

senti saudade do metrô até o minuto seguinte, quando aumentei para o nível três, o bom samaritano, digo, o ar condicionado. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

tempo nosso

hoje eu assinei aquelas camisetas.

vocês faziam isso quando mais novos? no último dia de aula levavam a camiseta mais suja e velha do uniforme, munidos de canetinhas para que a turma toda assinasse o nome, mais vidrados na chance de testar uma nova assinatura do que preocupados de fato com a posteridade? eu fazia. não sei direito onde foram parar as minhas e a mais doce lembrança que tenho é de uma, na oitava série, quando grandes amigos fizeram questão de assinar em diversos cantos da camiseta, pra mostrar importância. tempos sem facebook, aqueles. 

as crianças de hoje também o fazem. fizeram hoje. não sabiam ao certo o que de fato escrever, muitas levaram as canetinhas erradas e - o que achei mais estranho, devo confessar - não tinham as camisetas no corpo, mas sim dentro da mochila. tiravam dali e estendiam na mesa "para ficar mais retinho". tive vontade de corrigi-las, mas eu não sabia dizer o que era mais certo. 

que tempos os de hoje. uma invasão de fotos no facebook, milhares de imagens que nunca serão impressas e que expressam diversas declarações de amor para todo mundo ver nas redes sociais. grupos da turma no whatsapp. cola digital. subgrupos da turma no whatsapp. áudios compartilhados. "posso tirar uma foto da lição de casa, prô?". "fulano tá online, quer que eu pergunte se ele chega atrasado ou vai faltar?". tudo digital, as letras cursivas cada vez mais medonhas enquanto os dedos deslizam cada vez mais rápido nas teclas dos celulares. e no meio disso tudo uma camiseta e algumas canetinhas.

"te adoro! boas férias! se cuida! você é meio estranho, mas te acho legal! uma assinatura pra você lembrar de mim sempre. mirela. pietro. nika. gabi. dandara. que sua vida seja tão linda quanto você merece, prô flávia." meus professores não assinavam camisetas. eu assino. que tempo bom esse - que é deles, e por que não também nosso?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

pra tirar o pó

Sonhei com você hoje. Um sonho maluco, sem começo, nem fim, desses que a gente só lembra pedaço – e ainda assim desimportantes. Sonho desses que deixam só o sentimento, quando não lembramos detalhe algum, mas quase tudo que sentimos. Meu coração estava na boca e, antes que eu continue, no sonho me lembrei do formato da sua. Engraçado como funciona o subconsciente, eu não lembrava que a tua tinha esse formato coração, nem de como eram intercalados os seus dentes de baixo, mas ali estava tudo isso, enquanto eu não abria os olhos, enquanto te ver ainda era permitido. Não, nós não nos beijávamos, e talvez por isso eu não lembre bem do gosto do seu beijo. Que diferença faz?
Havia uma mulher e ela estava grávida. O filho era seu, eu tenho certeza, e tenho certeza também que isso tem um pouco de tudo a ver com o fato de eu ter assistido aquela loucura do Woody Allen ontem, e você mostrava sua felicidade. É por isso que eu lembro tanto da sua boca, sua felicidade estava nela, naqueles contornos, no formato coração. Acho que me concentrei nesse fato pela surpresa de te ver feliz ao ter um filho com outra. Eu não consigo te imaginar em outro relacionamento, não consigo te ver como homem, que dirá como pai! Foi um choque. Meu coração ainda dá alguns pulos quando penso no que senti naquele sonho.
Voltando ao ponto principal: eu te amava. E esse era o sentimento mais esquisito de todos. Foi o que me assustou logo a princípio, a ponto de me acordar o consciente no meio daquela inconsciência toda. ‘Era assim que eu amava você’, meu corpo me dizia. E eu pude sentir toda aquela sensação de novo, aquele torpor no corpo, o medo de perder, o encantamento pelo sorriso, como eu gostava do seu sorriso e ele nem era tão bonito assim. Comum. Como você pôde me abandonar?
             Em determinado momento do sonho você olha pra mim e aí é quando o mundo gira. Quando eu caio de algum nível do sono – os médicos explicam melhor – e eu percebo que estou sonhando, naquele entorpecimento, na busca por não acordar, por ficar. Lembra um pouco “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, só que você não sabe o que está acontecendo e pelo seu olhar eu entendo que isso não importa. De repente não há mais criança, não há mais outra mulher, não há mais futuro, nem presente, só nós dois naquele passado. Num mundo que não conhecemos nada e do qual não precisamos falar. Não há sexo, não há desejo, não há ânsia de conversar ou contar a vida. Somos só nós dois e o que éramos e pelo seu olhar eu entendo que há amor. Ah, o alívio, a sensação de paz ao entender que ela não assumiu meu lugar, assim como ninguém vai. Eu não lembro se nos tocamos, mais uma vez, é desses sonhos que a lembrança é vaga e a sensação profunda. Acordei assustada, suando, presa naquele nunca. 
              Não era sonho. Foi pesadelo.