terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

voyeur

quando eu andava de metrô as pessoas me inspiravam.
eu nunca ficava sem escrever aqui no blog, porque eram tantas as possíveis histórias! adorava ficar naquele devaneio discreto, olhando as pessoas de rabo de olho (quando não o fazia incansavelmente de maneira direta), imaginando suas vidas pelas tatuagens, pela vestimenta, pelo que liam ou ouviam. tinha vontade de fazer entrevistas com algumas delas, meu lado jornalista literária pulsando, cheio de vontade de saber e contar aquelas histórias. com algumas delas eu puxava conversa, com outras imaginava... a velha história do tão citado Samuel Rosa que adoro repetir.

lembro quando acontecia da pessoa descer antes do esperado, num ponto de ônibus ou estação de metrô. eu sentia uma vontade louca de pedir que ficasse, não!, não desce nesta estação ainda não, eu ainda não consegui desvendar (e desmembrar e imaginar e construir) você! mas na maior parte do tempo, a vontade aguda era de descer junto com ela - geralmente era ela, poucos ele - e descobrir um pouco mais, confirmar minhas suspeitas, encontrar novos segredos. eram pessoas especiais, pois eram escolhidas em espaços pequenos lotados, cheios de rostos e histórias a serem desvendadas, mas que se destacavam ou pela beleza, ou pelo modo de sentar... quem sabe sorrir?

hoje pouco ando de metrô e tenho que confessar que há um alívio nessa constatação. afinal de contas, quem aqui já se aventurou por são paulo às 7 da manhã ou da noite ou em qualquer outro período neste meio tempo, bem sabe que é tarefa árdua. quando entro no meu carro neste calor de quase quarenta graus e ligo o ar condicionado só consigo pensar que Deus teve piedade de nós de alguma forma e não há traço de memória que me faça voltar para a delícia que era estudar aquelas histórias. ademais, há sempre muitos carros.

são paulo se fosse palavra seria gente (ou oportunidade? nunca decidi!) e hoje me peguei analisando a moça do carro ao lado. o trânsito permitiu que eu notasse seu braço tatuado, a calota do lado esquerdo faltando, o óculos de sol roxo e os cabelos encaracolados. em determinado momento o celular dela tocou, mas não consegui escutar o que dizia (maldito motoqueiro!), só notei que parecia bem irritada. parecia o tipo que solta palavrão sem parar, que trabalha tocando violão em barzinho, que tem segurança em chegar em qualquer homem e que nunca pensaria em engravidar. dessas mulheres, tão avessas a mim, autossuficientes, cheias de atitude, que ignoram a vontade de filhos pois se bastam e fim. gostei dela de cara. 

mas então o caminhão que manobrava à frente liberou o trânsito e enquanto eu maldizia a rapidez do trânsito surpreendentemente bom que me tirava o prazer de observá-la, ela cheia de pressa me cortou pela esquerda, logo virando na continuação da avenida conceição e só parando depressa para não atropelar um pedestre desses folgados que cruzam a rua sem olhar pros lados e quase morrem nos deixando a culpa. parei logo atrás dela e li no adesivo cafona que ia colado no vidro traseiro do corsa : "cuidado, elis à bordo". só então notei a cadeirinha de bebê no banco de trás. ao menos acertei o gosto por música, pensei enquanto ela buzinava com força mostrando o dedo do meio para a pedestre desavisada.

senti saudade do metrô até o minuto seguinte, quando aumentei para o nível três, o bom samaritano, digo, o ar condicionado. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

tempo nosso

hoje eu assinei aquelas camisetas.

vocês faziam isso quando mais novos? no último dia de aula levavam a camiseta mais suja e velha do uniforme, munidos de canetinhas para que a turma toda assinasse o nome, mais vidrados na chance de testar uma nova assinatura do que preocupados de fato com a posteridade? eu fazia. não sei direito onde foram parar as minhas e a mais doce lembrança que tenho é de uma, na oitava série, quando grandes amigos fizeram questão de assinar em diversos cantos da camiseta, pra mostrar importância. tempos sem facebook, aqueles. 

as crianças de hoje também o fazem. fizeram hoje. não sabiam ao certo o que de fato escrever, muitas levaram as canetinhas erradas e - o que achei mais estranho, devo confessar - não tinham as camisetas no corpo, mas sim dentro da mochila. tiravam dali e estendiam na mesa "para ficar mais retinho". tive vontade de corrigi-las, mas eu não sabia dizer o que era mais certo. 

que tempos os de hoje. uma invasão de fotos no facebook, milhares de imagens que nunca serão impressas e que expressam diversas declarações de amor para todo mundo ver nas redes sociais. grupos da turma no whatsapp. cola digital. subgrupos da turma no whatsapp. áudios compartilhados. "posso tirar uma foto da lição de casa, prô?". "fulano tá online, quer que eu pergunte se ele chega atrasado ou vai faltar?". tudo digital, as letras cursivas cada vez mais medonhas enquanto os dedos deslizam cada vez mais rápido nas teclas dos celulares. e no meio disso tudo uma camiseta e algumas canetinhas.

"te adoro! boas férias! se cuida! você é meio estranho, mas te acho legal! uma assinatura pra você lembrar de mim sempre. mirela. pietro. nika. gabi. dandara. que sua vida seja tão linda quanto você merece, prô flávia." meus professores não assinavam camisetas. eu assino. que tempo bom esse - que é deles, e por que não também nosso?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

pra tirar o pó

Sonhei com você hoje. Um sonho maluco, sem começo, nem fim, desses que a gente só lembra pedaço – e ainda assim desimportantes. Sonho desses que deixam só o sentimento, quando não lembramos detalhe algum, mas quase tudo que sentimos. Meu coração estava na boca e, antes que eu continue, no sonho me lembrei do formato da sua. Engraçado como funciona o subconsciente, eu não lembrava que a tua tinha esse formato coração, nem de como eram intercalados os seus dentes de baixo, mas ali estava tudo isso, enquanto eu não abria os olhos, enquanto te ver ainda era permitido. Não, nós não nos beijávamos, e talvez por isso eu não lembre bem do gosto do seu beijo. Que diferença faz?
Havia uma mulher e ela estava grávida. O filho era seu, eu tenho certeza, e tenho certeza também que isso tem um pouco de tudo a ver com o fato de eu ter assistido aquela loucura do Woody Allen ontem, e você mostrava sua felicidade. É por isso que eu lembro tanto da sua boca, sua felicidade estava nela, naqueles contornos, no formato coração. Acho que me concentrei nesse fato pela surpresa de te ver feliz ao ter um filho com outra. Eu não consigo te imaginar em outro relacionamento, não consigo te ver como homem, que dirá como pai! Foi um choque. Meu coração ainda dá alguns pulos quando penso no que senti naquele sonho.
Voltando ao ponto principal: eu te amava. E esse era o sentimento mais esquisito de todos. Foi o que me assustou logo a princípio, a ponto de me acordar o consciente no meio daquela inconsciência toda. ‘Era assim que eu amava você’, meu corpo me dizia. E eu pude sentir toda aquela sensação de novo, aquele torpor no corpo, o medo de perder, o encantamento pelo sorriso, como eu gostava do seu sorriso e ele nem era tão bonito assim. Comum. Como você pôde me abandonar?
             Em determinado momento do sonho você olha pra mim e aí é quando o mundo gira. Quando eu caio de algum nível do sono – os médicos explicam melhor – e eu percebo que estou sonhando, naquele entorpecimento, na busca por não acordar, por ficar. Lembra um pouco “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, só que você não sabe o que está acontecendo e pelo seu olhar eu entendo que isso não importa. De repente não há mais criança, não há mais outra mulher, não há mais futuro, nem presente, só nós dois naquele passado. Num mundo que não conhecemos nada e do qual não precisamos falar. Não há sexo, não há desejo, não há ânsia de conversar ou contar a vida. Somos só nós dois e o que éramos e pelo seu olhar eu entendo que há amor. Ah, o alívio, a sensação de paz ao entender que ela não assumiu meu lugar, assim como ninguém vai. Eu não lembro se nos tocamos, mais uma vez, é desses sonhos que a lembrança é vaga e a sensação profunda. Acordei assustada, suando, presa naquele nunca. 
              Não era sonho. Foi pesadelo. 
          

sábado, 20 de fevereiro de 2016

meus homens ao mar

eu sempre amei o mar.

desde que criei consciência me sinto bem com cheiro de sal. na infância, passava horas procurando conchas, aproveitando a sensação de enfiar os dedos dos pés na areia. tudo me era curioso: as pernas de moça, as estrelas do mar, siris e corruptos. um universo à parte do qual sempre pertenci.

meu pai é o maior fã de mar que eu conheço. gosta das ondas, admira a calmaria de um mar tranquilo. "olha que piscininha!" ou "hoje o bicho está bravo!". não importa como o mar se apresente, meu pai o respeita. se fascina. foi na companhia dos pés de meu pai e na segurança de suas mãos que fui apresentada ao mar. foi sob seu olhar atento que peguei jacarés, furei onda. é naquela imensidão que melhor exercemos o papel de pai e filha. "vamos dar um mergulho?". a resposta sempre foi sim.

na adolescência comecei a achar no mar minha maior conexão direta com Deus. no vaivém de suas ondas passei a recarregar minhas forças, fazer pedidos, pedindo licença, agradecer. transformei-o em lugar santo. "livrai-me de todo mal, amém". minha igreja. 

e então eu o encontrei. o capitão que me tirou do cais, o meu amor em forma de paz. mal pude conter a empolgação a primeira vez que ele perguntou se eu queria entrar. "vamos dar um mergulho?". era ele! eu sabia que era ele! não à toa, dissemos nosso primeiro eu te amo recíproco dentro de um navio, sob aquela imensidão. e seguimos desbravando praias desde então, batizando-nos entre um beijo e uma onda de sal. foi com ele que entendi como o mar pode ser doce.

neste janeiro,porém, o momento mais especial aconteceu enquanto eu estava na areia, ali, no mesmo posto que sempre pertenceu a minha mãe e irmã. com um livro na mão e sentindo o vento embaraçando meu cabelo, esperando o sol ir embora, me vi olhando para o mar. estava um dia lindo, o mar parecia tão limpo e eu estava esperando só um convite para entrar. mas antes mesmo de me levantar da cadeira e chamá-los, tomada de iniciativa, eu parei e os vi. meu pai. meu amor. e os vi não como se vê normalmente,mas como se enxerga de verdade. estavam os dois fazendo os últimos retoques da isca que ia na vara, em plena sintonia. agitaram seus bonés e então veio o convite em forma de olhar. "você vem?", me perguntaram os dois. eu disse que não, também com os olhos. as quatro sobrancelhas se juntaram, em dúvida. "por que não?", mais uma vez elas disseram sem dizer.

_ daqui a pouco - me permiti responder. queria fotografar os dois indo, contar seus passos. meu começo e meu fim. admirar. agradecer. dá pra rezar fora da igreja, pensei, enquanto ambos iam a caminho do mar.